Depois de uma festa de Halloween, um voo cancelado devido ao mau tempo e uma noite dormida num hotel (quase ao lado de casa), sabe tão bem chegar ao sítio onde nos esperam. Aqui há sol e chuva, há calor e frio, há conversas trocadas, gargalhadas que fazem chorar e muito muito amor.
E há espaço para festejar o meu aniversário com um atraso de 15 dias :)
São linhas simples e descomprometidas que narram as minhas descobertas diárias na cidade que me viu chegar de armas e bagagens. Sentimentos, caras, conversas, olhares, descobertas, tudo o que passa por mim e me faz parar algum tempo, que me faz ficar imóvel enquanto tudo se move ao ritmo estonteante da cidade "Happiness is only real when shared." (Christopher McCandless)
05/11/15
20/10/15
Carta a Luaty
Luaty,
desde o primeiro momento que soube da tua situação, estou solidária contigo e com os teus colegas. Neste momento, estás a despertar o mundo para uma situação que todos sabiam, mas ninguém"sentia",como aquela foto do menino morto nos braços do pai despertou consciências.Infelizmente são precisas atitudes trágicas para nos tirar do conforto do dia-a-dia.
Senti logo uma revolta enorme e uma vontade de agir. Mas como? O que fazer?
Tenho faltado às aulas para participar nas vigílias que têm organizado.
Na primeira, senti-me estranha, não sabia bem porque estava ali, qual era o resultado que esperávamos... Havia poucas pessoas, o ambiente estava pesado. Fui sozinha porque não consegui mobilizar ninguém e lá não encontrei nenhuma cara conhecida.
Limitei-me a permanecer em silêncio,desejando que a minha presença ali pudesse fazer alguma diferença enquanto a noite fria me gelava o rosto e o coração.
Convocaram mais uma vigília,e mais uma vez estive presente. Saí a correr do trabalho e, qual não foi o meu espanto, quando encontrei meia praça cheia de vozes que apelavam à liberdade e aí o meu coração encheu-se de esperança. Fiquei até ao fim e acendi duas velas nas quais depositei toda a minha esperança.
Dois dias depois passei no Rossio e as velas ainda ardiam,os cartazes continuavam lá e, enquanto assim o é,a tua história não é esquecida. Sentei-me,sentindo a necessidade de olhar por vocês. Enquanto ali estive,foram tantas as pessoas que me vieram perguntar o que se passava, eu expliquei pacientemente a cada uma delas, despertando mais e mais consciências, senti, por momentos, que desta vez, estava mesmo a fazer a diferença. Decidi ficar por ali, olhava para as fotos e para as velas e não sabia bem a quem pedir, a quem orar, nesta minha vigília solitária,mas falei com o coração e pedia em silêncio para que vos libertassem rapidamente e para que recuperasses as forças.
Estou contigo nesta luta, e por isso escrevo-te para te dizer que somos cada vez mais, que tu e os teus colegas não estão sós. Que Portugal está desperto para o que se passa em Angola,digo eu,hoje,mais do que nunca.
Escrevo-te também para te agradecer por me inspirares e por mudares o pedacinho de mundo que está a tua volta.
Melhora rápido,
Beatriz Camacho
desde o primeiro momento que soube da tua situação, estou solidária contigo e com os teus colegas. Neste momento, estás a despertar o mundo para uma situação que todos sabiam, mas ninguém"sentia",como aquela foto do menino morto nos braços do pai despertou consciências.Infelizmente são precisas atitudes trágicas para nos tirar do conforto do dia-a-dia.
Senti logo uma revolta enorme e uma vontade de agir. Mas como? O que fazer?
Tenho faltado às aulas para participar nas vigílias que têm organizado.
Na primeira, senti-me estranha, não sabia bem porque estava ali, qual era o resultado que esperávamos... Havia poucas pessoas, o ambiente estava pesado. Fui sozinha porque não consegui mobilizar ninguém e lá não encontrei nenhuma cara conhecida.
Limitei-me a permanecer em silêncio,desejando que a minha presença ali pudesse fazer alguma diferença enquanto a noite fria me gelava o rosto e o coração.
Convocaram mais uma vigília,e mais uma vez estive presente. Saí a correr do trabalho e, qual não foi o meu espanto, quando encontrei meia praça cheia de vozes que apelavam à liberdade e aí o meu coração encheu-se de esperança. Fiquei até ao fim e acendi duas velas nas quais depositei toda a minha esperança.
Dois dias depois passei no Rossio e as velas ainda ardiam,os cartazes continuavam lá e, enquanto assim o é,a tua história não é esquecida. Sentei-me,sentindo a necessidade de olhar por vocês. Enquanto ali estive,foram tantas as pessoas que me vieram perguntar o que se passava, eu expliquei pacientemente a cada uma delas, despertando mais e mais consciências, senti, por momentos, que desta vez, estava mesmo a fazer a diferença. Decidi ficar por ali, olhava para as fotos e para as velas e não sabia bem a quem pedir, a quem orar, nesta minha vigília solitária,mas falei com o coração e pedia em silêncio para que vos libertassem rapidamente e para que recuperasses as forças.
Estou contigo nesta luta, e por isso escrevo-te para te dizer que somos cada vez mais, que tu e os teus colegas não estão sós. Que Portugal está desperto para o que se passa em Angola,digo eu,hoje,mais do que nunca.
Escrevo-te também para te agradecer por me inspirares e por mudares o pedacinho de mundo que está a tua volta.
Melhora rápido,
Beatriz Camacho
18/10/15
Dias de aniversário
Este ano, decidi embalar-me pelos dias e deixei as expectativas e balanços feitos em noites de vigílias nas vésperas de aniversários, para outras noites de anseios e receios.
Este ano saboreei os momentos, agarrei as pessoas, sem antes nem depois, sem caminhos a traçar,apenas o "aqui" e o "agora". Vivi a manhã com surpresa, as tarde com doses gigantescas de amor pequenino e a noite embalou-me no conforto familiar. Uma barriga cheia de amor!
Foi um aniversário pouco material, mas cheio de humanidade, cheio de abraços daqueles que me rodeiam. Foram três dias de festejos comigo a correr de um lado para outro para conseguir estar com todos aqueles que me queriam abraçar. Foi ano de parar e agradecer à vida.
Dizem que crescemos quando passamos o primeiro aniversário sem os pais, se assim o é cá estou eu pronto para os desafios dos 24. Que venham eles!
15/08/15
Pelas danças do Andanças
"Aceita o convite para dançar, escuta a história do andanças sussurada entre passos, rodopia em sorrisos marcados e entra na magia de um ritmo partilhado. Na mudança de direção guia e deixa-te guiar, canta a beleza do lugar e partilha as músicas no sonho da próxima dança"
Dancei de manhã à noite. Sozinha, a pares, com montes de pessoas. Devagar e rápido. Mais contida e completamente descontraída.
Rodei o mundo todo numa dança. Troquei de pares. Cada par um sorriso.
Respirei os compassos e fintei os tempos da música. Em bicos de pés, descalça, aos saltos.
Porque a dança permite a partilha, permite respeitar o outro, guiar ou deixar ser guiada. Deixei-me ser levada, embalada pela música. E depois de tanto rodopiar, afasto-me e contemplo a dança. Não há nada mais bonito que ver dançar, porque só a paragem permite o amor. O amor de quem leva a vida a dançar, de dois corpos que seguem o mesmo ritmo na dança que é a vida.
Dancei de manhã à noite. Sozinha, a pares, com montes de pessoas. Devagar e rápido. Mais contida e completamente descontraída.
Rodei o mundo todo numa dança. Troquei de pares. Cada par um sorriso.
Respirei os compassos e fintei os tempos da música. Em bicos de pés, descalça, aos saltos.
Porque a dança permite a partilha, permite respeitar o outro, guiar ou deixar ser guiada. Deixei-me ser levada, embalada pela música. E depois de tanto rodopiar, afasto-me e contemplo a dança. Não há nada mais bonito que ver dançar, porque só a paragem permite o amor. O amor de quem leva a vida a dançar, de dois corpos que seguem o mesmo ritmo na dança que é a vida.
Mais um regresso
Já muito escrevi sobre os meus regressos a casa. Mas ainda que assim seja, sinto que fica sempre algo por dizer, mais uma palavra para acrescentar.
Cada regresso é diferente, ainda que igual no seu ritual. Sei lá eu todos os motivos que me fizeram correr para casa: para esquecer um coração, para encontrar conforto num abraço, para chegar ao fundo antes de começar a subir, para parar o tempo, para repensar os próximo passos.
A verdade é que, cada vez mais, o regresso tem para mim um efeito estranho, uma espécie de anestesia.
A casa apresenta-se como um museu da minha infância, as fotografias nas molduras espalhadas por toda a parte, mostram uma menina pequena de caracóis que já não (re)conheço. O quarto e as histórias da Anita que continuam pela mesma ordem desde a última vez que lhes toquei, têm o mesmo cheiro, apesar das sucessivas alterações da mãe de forma a torná-lo mais moderno, fingindo assim que o tempo por ele passou.
Os sons, o barulho, todos a quererem falar uns por cima dos outros, a repetirem vezes sem conta a mesma coisa - cenas típicas da minha família que se vão desenrolando diante de mim como um filme em que eu sou mera espectadora.
Voltar a casa é esbarrar de frente com o quanto crescemos, com tudo aquilo que não somos. É como se tentássemos vestir a todo o custo as roupas que já não nos servem.É visitar os sítios e lugares onde a nossa infância ficou.
Voltar a casa é ter tempo para inquietações metafísicas e perceber em que parte do caminho ficaram os sonhos.
Voltar a casa é como regressar à Terra do Nunca num corpo e alma de adulta que não quer crescer.
Cada regresso é diferente, ainda que igual no seu ritual. Sei lá eu todos os motivos que me fizeram correr para casa: para esquecer um coração, para encontrar conforto num abraço, para chegar ao fundo antes de começar a subir, para parar o tempo, para repensar os próximo passos.
A verdade é que, cada vez mais, o regresso tem para mim um efeito estranho, uma espécie de anestesia.
A casa apresenta-se como um museu da minha infância, as fotografias nas molduras espalhadas por toda a parte, mostram uma menina pequena de caracóis que já não (re)conheço. O quarto e as histórias da Anita que continuam pela mesma ordem desde a última vez que lhes toquei, têm o mesmo cheiro, apesar das sucessivas alterações da mãe de forma a torná-lo mais moderno, fingindo assim que o tempo por ele passou.
Os sons, o barulho, todos a quererem falar uns por cima dos outros, a repetirem vezes sem conta a mesma coisa - cenas típicas da minha família que se vão desenrolando diante de mim como um filme em que eu sou mera espectadora.
Voltar a casa é esbarrar de frente com o quanto crescemos, com tudo aquilo que não somos. É como se tentássemos vestir a todo o custo as roupas que já não nos servem.É visitar os sítios e lugares onde a nossa infância ficou.
Voltar a casa é ter tempo para inquietações metafísicas e perceber em que parte do caminho ficaram os sonhos.
Voltar a casa é como regressar à Terra do Nunca num corpo e alma de adulta que não quer crescer.
12/08/15
Que jovens (espertos) somos!
" Que esperta que sou: com a minha contestação, dou o exemplo e demonstro como a sociedade portuguesa não está morta. Sei que a proliferação dos diplomas universitários fez com que muitos se tivessem desvalorizado, por isso estive na primeira linha da minha faculdade a exigir mais e melhor.
Que esperta que sou: claro que vivo dependente dos meus pais e tenho a sorte de eles me ajudarem quando podem. Queriam que eu vivesse do call center ou do biscate do supermercado? Mas não sou parva, por isso adio ir viver com o meu namorado: só planeio com ele um fim de semana sem grandes gastos, em casa de amigos e sem os olhares dos eternos padrinhos da "geração rasca", designação que afinal tanto nos uniu.
Que esperta que sou: sei que não há liberdade num trabalho tão precário e tenho a convicção de que o estudo, só por si, nunca me trará independência. Mas sou esperta porque sou autónoma: conto aos meus pais o que acho importante partilhar, não aceito à partida todos os temas que os professores me trazem (...)
Que esperta que sou: claro que fiz Erasmus. Conheci outros temas e outras gentes sobretudo outras maneiras de pensar. Estive num país onde os políticos não se insultavam e o debate democrático se generalizava na família e na escola. Não fiquei pela 4ª classe, como os meus avós, nem pelo 9º ano, como os meus pais. E sei que o Bruno, que fazia tanta porcaria na escola onde andámos e, talvez por isso, deixou de estudar no 8º ano, jamais terá as mesmas hipóteses do que eu: no momento em que a crise abrandar, os meus desafios serão bem mais interessantes do que os dele.
Que esperta que sou, por isso não me resigno: como posso aceitar uma sociedade que critica os mais novos, como se fôssemos sempre os ignorantes de serviço? Que compara a nossa ida para o estrangeiro com a emigração dos anos sessenta, era em que milhares de portugueses não qualificados fugiam de Portugal (e de Salazar) para maus empregos em França? (...).
Que esperta que eu sou : por isso vou lutar pela valorização do mérito e do esforço e pelo fim das influências e das pressões. Sei bem que a voz dos mais novos, depois da escuta activa dos mais experientes, é essencial para tudo melhorar. Não esqueço que há muito a mudar também em nós, mas nunca nos gabámos da perfeição: sei que precisamos de estar mais atentos ao outro ao nosso lado, pensar menos no prazer imediato e tentar ver um pouco mais a prazo. Ler e estudar mais, como nos dizem os mais velhos que vale a pena ouvir. No meu trabalho actual, mal remunerado e precário como o dos meus amigos, vou fazer ouvir a minha voz, única forma de me sentir melhor comigo mesma e de aumentar a possibilidade de repararem em mim (...).
Que esperta que eu sou, por isso vou melhorar sem me calar: irei denunciar sempre a arrogância de quem critica os jovens sem ter ganho um minuto a falar com eles".
Daniel Sampaio, Da Família, Da Escola, E Umas Quantas Coisas Mais
A todos os jovens que ainda produzem ideias, constroem sonhos e com esses sonhos transformam a sociedade,
A todos os que criam os seus projectos porque não têm medo de pensar e questionar e não estão totalmente formatados pela sociedade onde vivem,
A todos os que saem do lugar comum,
Que esperta que sou: claro que vivo dependente dos meus pais e tenho a sorte de eles me ajudarem quando podem. Queriam que eu vivesse do call center ou do biscate do supermercado? Mas não sou parva, por isso adio ir viver com o meu namorado: só planeio com ele um fim de semana sem grandes gastos, em casa de amigos e sem os olhares dos eternos padrinhos da "geração rasca", designação que afinal tanto nos uniu.
Que esperta que sou: sei que não há liberdade num trabalho tão precário e tenho a convicção de que o estudo, só por si, nunca me trará independência. Mas sou esperta porque sou autónoma: conto aos meus pais o que acho importante partilhar, não aceito à partida todos os temas que os professores me trazem (...)
Que esperta que sou: claro que fiz Erasmus. Conheci outros temas e outras gentes sobretudo outras maneiras de pensar. Estive num país onde os políticos não se insultavam e o debate democrático se generalizava na família e na escola. Não fiquei pela 4ª classe, como os meus avós, nem pelo 9º ano, como os meus pais. E sei que o Bruno, que fazia tanta porcaria na escola onde andámos e, talvez por isso, deixou de estudar no 8º ano, jamais terá as mesmas hipóteses do que eu: no momento em que a crise abrandar, os meus desafios serão bem mais interessantes do que os dele.
Que esperta que sou, por isso não me resigno: como posso aceitar uma sociedade que critica os mais novos, como se fôssemos sempre os ignorantes de serviço? Que compara a nossa ida para o estrangeiro com a emigração dos anos sessenta, era em que milhares de portugueses não qualificados fugiam de Portugal (e de Salazar) para maus empregos em França? (...).
Que esperta que eu sou : por isso vou lutar pela valorização do mérito e do esforço e pelo fim das influências e das pressões. Sei bem que a voz dos mais novos, depois da escuta activa dos mais experientes, é essencial para tudo melhorar. Não esqueço que há muito a mudar também em nós, mas nunca nos gabámos da perfeição: sei que precisamos de estar mais atentos ao outro ao nosso lado, pensar menos no prazer imediato e tentar ver um pouco mais a prazo. Ler e estudar mais, como nos dizem os mais velhos que vale a pena ouvir. No meu trabalho actual, mal remunerado e precário como o dos meus amigos, vou fazer ouvir a minha voz, única forma de me sentir melhor comigo mesma e de aumentar a possibilidade de repararem em mim (...).
Que esperta que eu sou, por isso vou melhorar sem me calar: irei denunciar sempre a arrogância de quem critica os jovens sem ter ganho um minuto a falar com eles".
Daniel Sampaio, Da Família, Da Escola, E Umas Quantas Coisas Mais
A todos os jovens que ainda produzem ideias, constroem sonhos e com esses sonhos transformam a sociedade,
A todos os que criam os seus projectos porque não têm medo de pensar e questionar e não estão totalmente formatados pela sociedade onde vivem,
A todos os que saem do lugar comum,
Obrigada!
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